A frase que dá título a esta crônica é um fragmento da Carta VII, do livro “Cartas a um
jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke. Ela não me saía da cabeça em um período difícil
na França e logo em seguida no retorno ao Brasil, já faz muito tempo. Não sei bem por
que ela me retorna à mente, talvez porque seja tempo de espera e a impaciência paire
no ar. Leio o parágrafo da carta onde está inserido a citação e me surpreendo com a
simplicidade e poesia com a qual o autor se dirigia a um interlocutor mais jovem. Diz
Rilke:
“É bom estar só, porque a solidão é difícil. Se uma coisa é difícil, razão mais forte para
a desejar. Amar também é bom porque o amor é difícil. O amor de um ser humano por
outro é talvez a experiência mais difícil para cada um de nós, o mais alto testemunho
de nós próprios, a obra suprema em face da qual todas as outras são apenas
preparações. É por isso que os seres muito novos, novos em tudo, não sabem amar e
precisam de aprender. Com todas as forças do seu ser, concentradas no coração que
bate ansioso e solitário, aprendem a amar. Toda aprendizagem é um tempo de
clausura.”
Não imito Rilke e não há escritor iniciante que me peça conselhos. Mas tenho a
palavra na madrugada quente e seca, na qual me levanto para escrever, como se
fosse possível escoar os dias em um texto que interesse a alguém. É quase Natal, o
verão já está pleno, dizem que será um pouco mais abafado, o degelo caminha a
passos largos. Detesto a obviedade da estação, seu calor explícito e sem tréguas,
ainda que os primeiros dias tenham sido menos intensos, com nuvens e chuva para
aliviar um pouco a temperatura.
O apartamento está limpo e vazio, mais vazio do que nunca depois da partida do Kino,
meu último gato, que se foi repentinamente em outubro. Mina, sua companheira por 15
anos, partiu em julho de 2022, e nos deixou saudoso de seu carinho irrestrito. Mas ele
tinha ficado aqui, presente em atenção e afeto. Os animais pedem menos do que os
humanos e tenho consciência de que uma fase boa da vida acabou. Poucos se
importam com esse tipo de lembrança, ainda que tenha recebido muitas mensagens
afetuosas ao longo desses meses estranhos.
As caixas cheias de papéis e livros para organizar ocupam os quartos, mas é como se
eu tivesse descoberto um método para classificar esse caos de referências. Penso em
mim como na carta do pendurado do tarô, suspenso por uma perna, e sem muita
opção do que fazer além de escrever. Toda aprendizagem é um tempo de clausura, e
eu vou tratar de meditar mais para aliviar a mente e o coração. As boas notícias estão
próximas, ainda que não seja hora de falar delas.
TODA APRENDIZAGEM É UM TEMPO DE CLAUSURA



