O meio literário reagiu com espanto ao prêmio Aena de Narrativa Hispano-americana,
no valor de um milhão de euros, outorgado recentemente à escritora argentina
Samanta Schweblin pelo livro de contos “O bom mal”. A notícia traz, inevitavelmente a
curiosidade pelo livro publicado no Brasil em 2025 pela editora Fósforo, com tradução
de Livia Deorsola.
O título “O bom mal” já é intrigante por seu paradoxo que parece um oxímoro, mas não
é, pois a oposição entre as duas palavras não é direta. Frequentemente associadas à
veia sombria de Edgar Allan Poe, as tramas evocam com mais frequência o não-dito
do conterrâneo Júlio Cortázar ou mesmo a capacidade de criar climas soturnos de
Ernesto Sabato.
“O bom mal” me trouxe essa ideia de mal-estar que usei para o título, remetendo a “O
mal-estar na civilização”, de Sigmund Freud, publicado em 1930, no qual a
subjetividade e a vida social são, de alguma maneira, colocadas em confronto. Os seis
contos do livro, no entanto, estão longe de perscrutar psicanaliticamente nossa época
e trazem à tona de modo bastante direto o convívio humano que sai dos trilhos por
uma circunstância fora do padrão. A ambientação e as personagens (a maioria é de
mulheres) se sobressaem com bastante desconforto, já que é no doméstico que a
autora perscruta a alienação e o inusitado, muitas vezes com a voracidade de quem
se diverte.
Logo no primeiro conto, “Bem-vinda à comunidade”, é apresentada a circunstância
trágica de uma mulher que tenta se afogar, mas, veja bem, se afogar em primeira
pessoa, como Virginia Woolf, com pedras, ainda que a narrativa deixe em evidência
que ela sobreviveu a isso, mesmo que a pulsão de destruição permaneça. “William na
janela” (com um quê de autoficção, confessa a autora na nota final) narra um encontro
de escritoras assombradas com o espectro de um gato, enquanto a “A mulher de
Atlántida” expõe a curiosidade perversa de duas meninas às voltas com uma poeta
alcoólatra. O livro não chama especialmente atenção pela linguagem, mas por essas
tramas que parecem mergulhos incômodos em vidas que poderiam ser a minha ou a
sua.
MAL-ESTAR PREMIADO



