O documentário “Pé na Estrada – O Movimento de uma Nação” (2025, Prime), com direção de Ebs Burnough e roteiro de Eliza Hindmarch, acaba sendo mais revelador do que talvez pretendesse ao retomar “On the Road – Pé na Estrada”, segundo romance do escritor estadunidense Jack Kerouac, que foi lançado em 1957. A proposta é celebrar um impulso de liberdade que teria marcado os Estados Unidos. Contudo, a ideia de “America” como horizonte simbólico, tratada como obviedade, funciona como redução do continente à experiência de um único país, algo que revela um viés etnocêntrico. O documentário apresenta, na verdade, uma experiência social bastante delimitada: jovens com disponibilidade para se deslocar pelo país e pretensão de que sua errância fosse projeto existencial, sendo que no filme isso ganha status de metáfora universal.
Nesse ponto “Pé na Estrada – O Movimento de uma Nação” se torna involuntariamente elucidativo: ao reafirmar um mito, ele evidencia suas fissuras. A estrada aparece como espaço de revelação e autenticidade, mas raramente se interroga quem pode, de fato, percorrê-la. Há a nostalgia de uma América (na verdade, EUA) que teria sido mais livre, sem a devida contextualização. Fala-se do legado beat. A figura de Jack Kerouac é reverenciada. No entanto, o conceito revolucionário do movimento e da obra é significativamente incompreendido.
“Na Estrada” (2012, Mubi), dirigido burocraticamente pelo brasileiro Walter Salles, percorria o mesmo caminho do documentário. O longa de ficção tentava oferecer a vivência da experiência beat e representar o fluxo da escrita de Jack Kerouac, mas só conseguiu organizar e estetizar aquilo que no livro era desmedido.
“Pé na Estrada – O Movimento de uma Nação” pelo menos promove involuntariamente descobertas. Ao falar sobre o mito da estrada, deixa entrever sua estrutura ideológica: a pretensão de universalidade e uma forma difusa de superioridade cultural que se apresenta como evidente. O mito da estrada de Jack Kerouac continua sedutor para muitos, mas a singularidade obra, e não seu território de origem, é que torna essa aventura original.



