Lançada há 50 anos, “As Panteras” (1976–1981, Sony One), originalmente “Charlie’s Angels”, ocupa um lugar destacado na história da televisão. No momento em que surgiu, a TV aberta dos EUA vivia uma crise de audiência e de criatividade. A série foi criada por Ivan Goff e Ben Roberts, mas sua grande força veio do produtor Aaron Spelling, um dos primeiros de seu setor a compreender que era necessário investir em apelo visual, em dinamismo e no charme das estrelas para competir com o cinema.
Além disso, a série trouxe algo inédito para o grande público: três mulheres jovens, ativas e competentes como protagonistas. Muito bem treinadas, elas trabalham como investigadoras particulares para a agência Townsend. Recrutadas por um homem chamado John Bosley, são na verdade chefiadas por Charlie Townsend, que nunca aparece em cena: ele é apenas uma voz ao telefone ou alto-falante. A cada episódio, as protagonistas recebem uma missão que exige infiltração, disfarces, inteligência estratégica e ação física, geralmente envolvendo crimes sofisticados, espionagem industrial, sequestros ou conspirações financeiras.
Como é de se imaginar, o grande trunfo de “As Panteras” foram as atrizes que estrelaram a série. O impacto fenomenal do programa deveu-se ao trio original formado por Kate Jackson, Jaclyn Smith e Farrah Fawcett. Kate era Sabrina Duncan, caracterizada por racionalidade e liderança. Jaclyn, por sua vez, foi a única pantera presente durante toda a série. Mas foi Farrah Fawcett quem transformou a série em acontecimento inesquecível. Ela apareceu apenas na primeira temporada, mas isso bastou para que sua imagem — sobretudo o famoso pôster de maiô vermelho — se tornasse uma das mais reproduzidas do século XX. Mais do que um símbolo sexual, Farrah encarnava um novo tipo de celebridade televisiva: ao mesmo tempo atriz, ícone pop e modelo. Sua personagem Jill Munroe combinava ingenuidade, corpo atlético e uma rara fotogenia.
Para tristeza dos fãs, Farrah Fawcett deixou o elenco regular após apenas um ano, no auge de sua popularidade, sendo substituída por Cheryl Ladd, que interpretou Kris Munroe, irmã mais nova da personagem de Farrah. Essa transição revelou-se surpreendentemente bem-sucedida: Cheryl Ladd, embora menos icônica em termos visuais, deu mais estabilidade à narrativa. Ao todo, foram três mudanças centrais no elenco das protagonistas. Além de Cheryl, as atrizes Shelley Hack e Tanya Roberts também participaram da série.
Desde o episódio piloto, a série estabeleceu o tom inovador do projeto: as Panteras se infiltram em uma prisão feminina para desmantelar uma rede criminosa. Assim é imediatamente caracterizado o típico contraste entre glamour e violência. Ao longo das temporadas, “As Panteras” investiu na repetição de uma ideia simples, de refinamento e força feminina. Roteiristas e diretores conseguiram transformar cada caso narrado em um espetáculo autônomo. Essa combinação de sinopse enxuta, episódios marcantes e visualidade bem planejada fez o êxito da série.
No Brasil, exibida em TV aberta em horários nobres, “As Panteras” foi consumida por uma audiência que ainda vivia sob a ditadura militar, em um ambiente cultural marcado por censura, repressão e forte controle moral. Nesse contexto, a série oferecia um contraponto: três mulheres independentes, inteligentes, fortes, belas e eficazes, tomando o lugar dos homens e fazendo o que eles não eram capazes de fazer. A voz de Charlie apresentava o desafio do episódio, mas eram elas que entravam em ação. O fascínio desse universo de fantasia e aventura certamente deixou marcas na imaginação do público brasileiro.
Finalmente, neste século, as Panteras chegaram ao cinema, em filmes de 2000, 2003 e 2019 (disponíveis no Prime), deles participaram atrizes como Cameron Diaz, Drew Barrymore, Lucy Liu e Kristen Stewart. Com mulheres no centro da ação, poder masculino invisível e ícones como Farrah Fawcett, “As Panteras” é uma das séries mais reveladoras da conquista pela televisão do poder de criar fascinantes e duradouros espetáculos, muitas vezes tão impactantes quanto os do cinema.



