“Eu trabalho com feridas”, disse a mulher, na abertura de sua apresentação no evento de
networking e a frase ficou ecoando na minha mente como se as chagas fossem móbiles de dor
se movendo pela grande sala do encontro. Em seguida, ela explicou sucintamente que era
enfermeira profissional e cuidava de pacientes carentes de cuidados intensos e/ou paliativos,
dando um tom profissional ao breve discurso. Aparentemente, ninguém achou estranha a
maneira como a fala dela começou, mas, não adianta, as feridas ficaram soando na minha
mente como um letreiro dramático de dor física e emocional.
Hoje, ao retomar essa frase, é como se isso se convertesse em literatura, em uma personagem
cuja especialidade é se mover no território pouco apreciado dos ferimentos que demoram a
cicatrizar e fazem sofrer todo o humano ao redor deles. Como um eco das dores internas que
explodem num corpo exausto.
Lembro também daqueles episódios da vida que retardam seu término: o luto, uma demissão
repentina, um relacionamento que termina sem muita explicação. Sobre esses desencontros
afetivos, há uma dezena desses amores rompidos na crônica “O amor acaba”, de Paulo
Mendes Campos, escrita em um único parágrafo ainda pulsante mesmo que ambientada nas
cidades brasileiras em 1964:
”O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e
silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a
pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela
esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora
tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no
desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados (…)”
As feridas aparecem também no filme “Ben Hur” (1959), de William Wyler, em uma das minhas
primeiros idas ao cinema, ainda criança, no qual experimentei uma epifania cristã quando
Jesus cura da hanseníase a mãe e a irmã do protagonista. Isso fez com que eu logo cedo
prestasse atenção para o mundo metafísico e para tudo que existe além das aparências. Em
meio ao verão escaldante do Rio de Janeiro e à parte a agitação turística na cidade, pensar na
metafísica é um exercício sinuoso de distanciamento.



