Em “O Gerente da Noite” (2016-, Prime), criada por David Farr, escritor britânico nascido em 1969, a passagem da primeira para a segunda temporada marca um desvio da série em a relação à obra do britânico John le Carré (1931-2020). O ponto de partida é ainda o romance “The Night Manager”, publicado em 1993, que foi adaptado na primeira temporada. A segunda temporada, no entanto, uma narrativa original, desenvolve, com autorização do espólio do autor, temas recorrentes de sua obra — sem a referência de um texto específico.
A primeira temporada foi predominantemente dirigida por Susanne Bier, que enfatizou a composição psicológica dos personagens. A segunda temporada, embora mantenha o mesmo criador e roteirista, apresenta uma direção mais funcional, com ampliação geográfica e novos núcleos dramáticos. A trama passa a acompanhar uma rede transnacional que envolve tráfico de armas, drogas, capital financeiro e intermediários estatais e privados. Jonathan Pine (Tom Hiddleston), ex-militar britânico, mantém seu protagonismo. Angela Burr (Olivia Colman) está aposentada como espiã. O vilão Richard Roper (Hugh Laurie) retorna como um criminoso transnacional. A introdução de novos personagens — entre eles o interpretado por Diego Calva — desloca parte da ação para a América Latina.
Do ponto de vista da produção, a série mantém um alto padrão técnico. A fotografia privilegia contrastes entre espaços de luxo e ambientes periféricos, reforçando visualmente a dissociação entre os centros decisórios e os territórios dominados pela ausência ordem legal. A trilha sonora continua discreta, subordinada à construção de tensão narrativa. A montagem adota um ritmo mais fragmentado.
A ausência de um romance de John le Carré como base direta na segunda temporada confere maior liberdade estrutural ao roteiro, mas também desloca o eixo da série. Em vez de reproduzir a lógica clássica da espionagem da Guerra Fria, “O Gerente da Noite” passa a trabalhar com temas recorrentes da obra tardia do autor: a privatização da violência, a convergência entre crime organizado e interesses estatais, e a perda de centralidade dos serviços de inteligência tradicionais em um mundo dominado por fluxos financeiros e alianças informais.
A Colômbia, na segunda temporada, é apresentada majoritariamente como espaço operacional do narcotráfico e da violência armada. Embora a série procure enfatizar que os centros de decisão permanecem fora do Sul Global, a assimetria de representação é evidente: personagens europeus e estadunidenses têm maior densidade psicológica e protagonismo narrativo. Trata-se da reprodução de convenções recorrentes no audiovisual clássico, que utilizam determinados territórios como cenários funcionais do crime transnacional, com pouco investimento em complexidade social local.
Ao se afastar da adaptação literária direta e investir em uma continuação original, “O Gerente da Noite”, em sua segunda temporada, deixa de ser apenas uma transposição televisiva de John le Carré para se afirmar como uma interpretação de seus temas centrais. A série preserva o vocabulário moral do autor — desconfiança institucional, ambiguidade ética e desencanto político —, mas isso é aplicado a um mundo em que as estruturas clássicas da espionagem já não organizam plenamente o poder. Nesse movimento, a segunda temporada busca atualizar, com seus acertos e limitações, o legado lecarreano para um cenário geopolítico contemporâneo.



