Em “O Cativo” (2026, Netflix), dirigido pelo chileno-espanhol Alejandro Amenábar (1972, Santiago do Chile), é narrado um período especialmente difícil da vida do gigantesco escritor Miguel de Cervantes (1547-1616), autor de “Dom Quixote”, considerado por muitos críticos o maior romance da história da literatura mundial. Em 1575, Cervantes foi capturado por corsários e levado para Argel, onde passou a viver como prisioneiro.
Ao longo da narrativa, o filme mostra como Cervantes (Julio Peña) se destacava em meio aos outros cativos. Por portar cartas de recomendação, foi tomado como alguém “importante” e mantido sob redobrada vigilância. Ele convivia com prisioneiros e autoridades e contava histórias para entreter uns e outros. Esse ato de narrar deu a ele uma forma de ganhar tempo, adiar punições e até conseguir momentos de liberdade em meio ao martírio.
É nesse contexto que surge a relação com o paxá (Alessandro Borghi), que é retratado como um homem culto, curioso e consciente do próprio poder. Entre ele e Cervantes se estabelece um relacionamento marcado por uma tensão que nunca se define por completo. O filme não evita a leitura homoerótica, mas sem cenas explícitas sexualmente. Não há, do ponto de vista histórico, provas de que Cervantes tenha vivido uma ligação desse tipo, mas a convivência forçada entre homens em posições desiguais de poder, em um mundo quase inteiramente masculino, não era incomum na época.
O Cervantes de “O Cativo” não é herói nem gênio em formação, mas um homem observador, vulnerável e às vezes calculista. Já o paxá é construído como uma autoridade silenciosa, quase elegante. Na narrativa do relacionamento deles, o filme investe em olhares, pausas e em um suspense que nunca precisa ser explicado em voz alta.
Essa abordagem não é estranha à filmografia de Alejandro Amenábar, diretor declaradamente homossexual. Desde “Os Outros”, filme de 2001 que consagrou Nicole Kidman, e “Mar Adentro” (2004), premiado com o Oscar, o cineasta demonstra interesse por personagens confinados (física, moral ou historicamente). Em “O Cativo”, ele aposta numa narrativa contida, quase árida, em que o passado não é espetacularizado. O filme evita soluções fáceis e prefere mostrar indivíduos tentando manter algum tipo de integridade em situações desesperadoras.
Finalmente, “O Cativo” não se propõe a retratar Cervantes fielmente. O que o filme oferece é uma recriação: a experiência do cativeiro, com sua intimidade forçada, o que pode ter sido decisivo para a formar um escritor cético. Essa obra do grande Alejandro Amenábar não busca meramente agradar ao público nem esclarecer a biografia do escritor. Ousa apresentar o inevitável desconforto da existência humana. Vale certamente para admirar a vivência e a trajetória de dois artistas: o escritor e o cineasta.



