Fotografo o quarto do poeta como um quadro embutido na parede. A cama está desarrumada, os travesseiros e os lençóis amarrotados como se Mario Quintana tivesse ido ali almoçar e voltasse logo. Mas a história não é bem assim e tudo (ou quase tudo) é cenário e adereço de cena nessa rememoração que me lembra a vida simples do também poeta Manuel Bandeira.
Há, ao mesmo tempo, peso e leveza que ecoam na poesia do autor gaúcho, afeito a poemas curtos e pungentes, do qual me aproximo com curiosidade e cautela. Nem por isso tenho por ele aquela espécie de aversão e ironia ao lírico que prosperou no meio acadêmico.
O despojamento da reprodução do quarto, montado a partir do quarto 217, um dos últimos aposentos de Quintana no antigo Majestic Hotel, em Porto Alegre, é como uma garrafa enterrada no tempo e guarda melancolia e reverência. Eu me pergunto se, como é uma reprodução, não seria mais impactante se permitisse a circulação das pessoas, mas mudo de ideia logo em seguida. Enterrado na parede, o quarto do poeta atrai como uma imagem em movimento e nos transporta para o passado sem nos misturar a ele.
É a segunda vez que venho a Porto Alegre e da primeira, em um compromisso acadêmico na PUC-RS, mal tive tempo de visitar o Centro Cultural Mario Quintana, onde o ambiente cultural é convidativo com cinemas, exposições (um arquivo dedicado à cantora Elis Regina também está no prédio) e mesinhas com cadeiras que certamente combinam mais com o inverno do que esse calorão que bafeja na cidade. Na cobertura do edifício, numa espécie de duomo, um café com opções apetitosas propicia uma vista do Guaíba em sua ambiguidade aquática, como um enorme rio, mas que na verdade é um lago. Entre os poemas de Quintana que recolho de um arquivo disponível ao público, compartilho este:
DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!



