“Presente Contínuo” (2025, HBO Max), de Ulises Rosell, é um documentário argentino
que nasce da afetuosa combinação de cinema, paternidade e neurodiversidade. Rosell,
cineasta formado pela Universidad de Buenos Aires e pela Universidad del Cine,
construiu ao longo de sua carreira uma obra voltada para a observação paciente do
cotidiano e de personagens que vivem fora das narrativas dominantes. Em filmes como
“Bonanza” (2001), “El Etnógrafo” (2012) ou “López” (2021), ele já havia desenvolvido
um cinema atento a difíceis formas de vida. Em “Presente Contínuo”, essa pesquisa
atinge a relação entre o próprio diretor e seu filho, Lisandro, uma criança autista.
O documentário apresenta fragmentos do cotidiano de Lisandro: ele anda pela casa e
pela cidade, observa luzes, repete gestos, às vezes vocaliza sons sem função
comunicativa clara. O filme também registra momentos em que Rosell e outras pessoas
tentam se aproximar dele, chamá-lo, tocar seu braço, propor uma atividade, quase
sempre sem resposta. Não há uma progressão dramática no sentido clássico. Não se
trata de acompanhar uma “evolução” ou uma “terapia”, mas de viver, junto com a
câmera, o tempo repetitivo e sensorial que Lisandro parece habitar.
Do ponto de vista científico, o que vemos em Lisandro corresponde a características
centrais do Transtorno do Espectro Autista (TEA), tal como descrito hoje pela
psiquiatria e pela neurociência: dificuldades persistentes de comunicação social, padrões
restritos e repetitivos de comportamento, interesse intenso por estímulos sensoriais
específicos e uma relação atípica com a linguagem simbólica. Crianças como Lisandro
costumam apresentar o que se chama de perfil autista de alto suporte, ou seja,
necessitam de ajuda significativa para organizar a vida cotidiana, comunicar desejos e
se orientar socialmente. No entanto, o filme nunca fornece dados clínicos: o que vemos
é apenas a expressão concreta de uma singularidade.
A montagem é feita de repetições e variações mínimas; os planos são longos; a
cronologia é indiscernível. Muitas cenas poderiam acontecer no mesmo dia ou em dias
diferentes. Essa experiência cinematográfica reproduz algo do que a ciência descreve
como o modo autista de relação com o tempo: uma vivência menos orientada por
narrativas de passado e futuro e mais ancorada no presente sensorial.
Rosell chama Lisandro, observa seus movimentos, filma seus silêncios. Em alguns raros
momentos, o menino toca a câmera ou olha para a lente. O que surge diante da câmera
não é apenas o mundo do menino, mas a dinâmica de uma família que gira em torno
dele. A mãe, Valentina Bassi, atriz de longa trajetória no cinema e no teatro argentino,
aparece no filme como um contraponto afetivo essencial ao olhar do pai. Ela toca,
conduz, insiste, tenta envolver Lisandro em atividades, em jogos. A mãe entra no
espaço do filho, aceita seus ritmos, tenta negociar com eles. Em algumas cenas, é ela
quem consegue uma reação mínima (um gesto, um deslocamento, uma atenção
momentânea) enquanto o pai permanece do lado de fora, separado pela lente. O que se
revela, então, é que o autismo não organiza apenas o tempo do menino, mas também o
tempo emocional dos adultos à sua volta.
“Presente Contínuo” não ensina “o que é o autismo”, mas o que significa conviver com
ele. O filme busca mostrar que, antes de qualquer diagnóstico, há um corpo, um ritmo,
uma maneira singular de estar no mundo. É nesse espaço entre o saber científico e a
experiência vivida que o cinema de Ulises Rosell encontra sua força mais perturbadora.



