“A Felicidade Não Se Compra” (1946, Looke), dirigido por Frank Capra e estrelado por
James Stewart, revela o espírito natalino essencial: não uma mera comemoração, mas
um momento de reflexão sobre a própria existência humana. George Bailey (Stewart),
um homem que sempre abriu mão de seus sonhos para ajudar os outros na cidade em
que nasceu, está desesperado e à beira do suicídio na véspera de Natal. Suas orações são
ouvidas no céu, e um anjo, Clarence, é enviado para mostrar a ele como o mundo seria
diferente (e pior) se ele nunca tivesse existido, revelando o impacto positivo de sua vida
nas pessoas ao seu redor. Ironicamente, o filme fracassou comercialmente em seu
lançamento original, mas décadas depois tornou-se sinônimo absoluto de Natal na
cultura americana quando entrou em domínio público e passou a ser exibido na
televisão.
“Milagre na Rua 34” (1947, Looke), dirigido por George Seaton, que aborda o Natal
pelo ângulo da tensão entre fé infantil ceticismo adulto. A famosa loja de departamentos
Macy’s precisa de um Papai Noel e acaba contratando o verdadeiro por acaso. Logo ele
contagia a todos com seu espírito altruísta e acaba demonstrando quem é realmente. A
ideia de que fé e razão podem conviver harmoniosamente tem apelo particular.
Dois filmes desta seleção adaptam a mesma história de Charles Dickens por caminhos
radicalmente diferentes. “Contos de Natal” (1951), a versão britânica dirigida por Brian
Desmond Hurst, é considerada pelos críticos a melhor adaptação do clássico. Ebenezer
Scrooge, um avarento rabugento, é visitado por três espíritos (do Passado, Presente e
Futuro) na véspera do Natal. Ele é então forçado a confrontar seu egoísmo e buscar
redenção, transformando-se num homem generoso e bondoso. Décadas depois, em “O
Natal dos Muppets” (1992), dirigido por Brian Henson em 1992, Michael Caine foi
escalado como o avarento Scrooge. Sua seriedade eleva todo o filme, o que valoriza os
momentos cômicos.
“O Natal do Charlie Brown” (1965, Amazon) dá oportunidade ao diretor Bill Melendez
de reinventar os quadrinhos geniais de Charles M. Schulz. Desapontado com o
consumismo no Natal, Charlie Brown se torna o diretor da peça de fim de ano da turma.
A animação colocou o dedo na ferida mercadológica em plena era dourada da
publicidade estadunidense.
“O Estranho Mundo de Jack” (1993), dirigido por Henry Selick e escrito por Tim
Burton, é simultaneamente filme de Halloween e de Natal. Jack Skellington, o Rei das
Abóboras da Cidade do Halloween, se sente entediado com sua rotina e descobre um
portal para a Cidade do Natal, ficando fascinado pelo espírito natalino. Ele decide
sequestrar o Papai Noel e liderar sua própria versão do Natal. O uso de arte gótica em
um filme sobre uma festa de fim de ano é genial. E a música de Danny Elfman cria uma
atmosfera sombria, mas curiosamente acolhedora.
“Simplesmente Amor” (2003, Filmelier), dirigido e escrito por Richard Curtis, é o
sétimo filme. São nove diferentes histórias de amor entrelaçadas na Londres pré-Natal.
A fotografia de Michael Coulter dá à cidade uma atmosfera de conto de fadas urbano. O
elenco, com destaque para Keira Knightley, faz comédia com emoção genuína. Para os
brasileiros, a alegria de rever Rodrigo Santoro.
“Feliz Natal” (2005), de Christian Carion, uma produção europeia, reconstrói um dos
episódios mais extraordinários da Primeira Guerra Mundial: a trégua espontânea de
Natal de 1914, quando soldados alemães, franceses e escoceses emergiram das
trincheiras para celebrar juntos. Não há propaganda ou sentimentalismo fácil. Em uma
sequência, um tenor alemão canta “Stille Nacht” e os outros gradualmente se juntam,
cada um em seu idioma.
No filme “Um Anjo em Minha Vida” (1996), dirigido por Penny Marshall, um
reverendo, com seu casamento em crise e sua igreja ameaçada por um especulador, pede
ajuda a Deus, que lhe envia um anjo como auxílio. O anjo se apaixona pela esposa do
reverendo, Julia (Whitney Houston), o que cria ainda mais confusão e conflito. Tudo, na
verdade, gira em torno de uma Whitney Houston no auge de seu poder vocal. Ela
domina de forma avassaladora o filme como atriz e cantora. Outra força da película,
passada no Natal, está em sua celebração autêntica da cultura gospel afro-americana e
na representação da igreja como principal centro comunitário naquela sociedade.
“Carol” (2015, Prime), de Todd Haynes, é o décimo e último filme desta seleção, mas
não o menos importante. Obra de rara sofisticação visual, ele adapta o romance de
Patricia Highsmith sobre amor lésbico na Nova York dos anos 1950. Note-se que a
palavra “carol”, além de nome próprio, significa, em inglês, “canção natalina”. Cate
Blanchett (Carol) e Rooney Mara (Therese) comunicam desejo e afeto por meio de
olhares e gestos discretos. O filme vê o Natal como experiência de isolamento. As
decorações festivas servem como contraponto à solidão das protagonistas. Carol
enfrenta um divórcio que ameaça separá-la de sua filha devido à sua sexualidade,
enquanto Therese trabalha oprimida por símbolos de domesticidade heteronormativa. É
um clássico natalino que redefine radicalmente o que “lar” e “família” significam. O
final, embora ambíguo, sugere que o amor pode sobreviver mesmo quando todas as
forças conspiram contra ele.



