“Terra de Pecados” (2026, Netflix) é uma minissérie que atesta a pujança do audiovisual sueco contemporâneo. Ela combina elementos da tradição clássica do cinema daquele país com um modo de produção viável no modelo de streaming global. Peter Grönlund, criador, roteirista principal e diretor da maioria dos episódios, ousa se afastar de fórmulas convencionais de crime e suspense para explorar a violência como resultado de falhas estruturais e como sintoma social.
Quando o adolescente Silas é encontrado morto em uma fazenda na península de Bjäre, a policial Dani (Krista Kosonen), com a ajuda de seu novo colega Malik (Mohammed Nour Oklah), parte para desvendar o caso. A investigação leva a dupla a um covil patriarcal no interior da Suécia, cenário de uma disputa familiar sombria que atravessa gerações. Dani tem uma conexão pessoal com a vítima, o que atrapalha seu trabalho e o contato com as famílias ligadas ao caso.
A linguagem audiovisual da minissérie prioriza a contenção e a observação, com planos demorados e som ambiente em vez de uma trilha musical convencional. O silêncio e os enquadramentos frontais caracterizam essa opção estética: a câmera acompanha mais do que explica.
Grönlund já havia se destacado no cinema sueco por narrativas que tratam a violência como condição social e interpessoal, não apenas como mistério a ser desvendado. Essa escolha revela um olhar crítico sobre as instituições sociais, cada vez mais incapazes de proteger os indivíduos ou de conter ciclos de violência. A própria protagonista, a detetive Dani Anttila, carrega esse peso: ela é incapaz de transformar a comunidade da qual está próxima, o que traz duras implicações éticas duras para a trama.
Em “Terra dos Pecados”, a paisagem rural surge como um personagem. A geografia serve ao clima emocional. Os ruídos ambientais (vento, passos, bichos) tomam o lugar da música típica de séries policiais. A montagem é deliberadamente econômica, mantendo a continuidade temporal e a intensidade psicológica dos envolvidos. Esse modo de produção dialoga com a tradição sueca de dar um lugar central ao conflito ético e à densidade psíquica.
O formato de minissérie (cinco episódios de duração relativamente curta) permite que “Terra dos Pecados” funcione como unidade narrativa fechada, quase como um filme dividido em capítulos. A Netflix, como plataforma, tem investido em conteúdo internacional que mantenha autenticidade cultural ao mesmo tempo seja acessível a um público global. Nesse caso, ela atua mais como parceira de financiamento e distribuição do que como definidora do processo criativo: Grönlund e sua equipe retêm um grau substancial de controle estético e narrativo, dentro dos padrões industriais que possibilitam à obra alcançar audiência além da Suécia sem diluir seu caráter crítico.
No panorama mais amplo da produção audiovisual sueca contemporânea, a minissérie criada por Grönlund lida com a lógica de mercado internacional (formatos rígidos, orçamento e visibilidade global), mas mantém a tradição de reflexão social e psicológica. É como se ele estivesse demonstrando que é possível produzir para plataformas como a Netflix sem abdicar completamente de um olhar crítico e de uma linguagem sofisticada.



