“Carrie, a Estranha” (1976, Prime), filme dirigido por Brian De Palma a partir de um romance de Stephen King, exibe, em seus 50 anos, notável importância histórica. Não é apenas uma obra clássica, mas um precursor do assim chamado Novo Terror no cinema. Carrie White, uma adolescente tímida e solitária, que é atormentada por sua mãe fanática e dominadora, libera poderes telecinéticos depois de ser humilhada por seus colegas de classe em um baile de formatura. A forte atuação de Sissy Spacek como Carrie é um dos principais fatores para a construção de um complexo drama psicológico e social, que ganha mais destaque do que a violência ou o sobrenatural.
O filme de Brian De Palma dialoga com o cinema contemporâneo representado por “A Substância” (2024, Mubi), “Pecadores” (2025, Prime) e “A Hora do Mal” (2025, HBO Max), representantes do Novo Terror. Em “Carrie, a Estranha”, o mundo já é distópico antes de qualquer manifestação sobrenatural: a escola funciona como tribunal moral, a religião, como sistema de controle, e a família, como mecanismo de opressão. É um ambiente social em que a violência se torna inevitável. O terror surge, portanto, como consequência de uma realidade hostil.
O Novo Terror retoma e radicaliza o caminho de Carrie. Em “Pecadores”, dirigido por Ryan Coogler, a narrativa, ambientada no Mississippi de 1932, mistura terror sobrenatural, drama histórico e sequencias musicais. De modo semelhante, “A Substância”, dirigido por Coralie Fargeat, transforma o horror em uma alegoria da distopia do corpo feminino: a violência dos padrões estéticos e da cultura da juventude eterna. Já “A Hora do Mal”, constrói terror psicológico a partir do desaparecimento simultâneo de 17 crianças de uma mesma turma em uma pequena cidade estadunidense.
“Carrie, a Estranha” introduz elementos que hoje definem o Novo Terror: a centralidade do ator, a estilização autoral, a dimensão simbólica do medo, a crítica social e o horror como representação de uma realidade distópica. Além disso, revela que o cinema de terror pode revelar a violência estrutural da sociedade e de transformar o medo em reflexão estética.



