O ator australiano Jacob Elordi será o próximo James Bond da franquia 007? É o boato que circula entre Hollywood e Pinewood Studios (Reino Unido). Nascido em Brisbane, em 1997, ele tem construído sua carreira combinando uma presença física marcante (1m96 de altura) e uma capacidade crescente de interpretar personagens complexos.
Elordi deu seus primeiros passos em “A Barraca do Beijo” (2018, Netflix), filme escrito e dirigido por Vince Marcello, em que interpretou Noah Flynn, “bad boy” por fora, vulnerável por dentro, sobretudo quando apaixonado. Mas seu ponto de virada foi a série “Euphoria” (2019-presente, HBO Max), criada por Sam Levinson. Nela adolescentes lidam com drogas, sexo e traumas psicológicos. Elordi vive Nate Jacobs, produto problemático de um pai abusivo e hipócrita que o expôs a pornografia desde a infância. O personagem desenvolve interiormente uma masculinidade tóxica, que se manifesta como violência direcionada a mulheres e pessoas LGBTQ+. Elordi, no entanto, foge da caricatura e revela a confusão interna de Nate. O ator foi elogiado pela coragem de mergulhar em uma composição tão sombria, mas enfrentou a tarefa inglória de discutir a negatividade de Nate em entrevistas sem romantizar o personagem que o tornou famoso.
O que fazer depois do estrondo de “Euphoria”? Voltar à zona de conforto das comédias românticas? Definitivamente não, diria Jacob Elordi. Em vez de virar galã, escolheu projetos ligados a diretores com visões autorais valorizadas pela crítica e personagens desafiadores. Em “Saltburn” (2023, Prime), segundo filme de Emerald Fennell, Elordi viveu Felix Catton, um aristocrata idolatrado por todos em torno dele. O protagonista da história é Oliver Quick (Barry Keoghan), estudante bolsista em Oxford obcecado por Felix, que ingenuamente o convida para passar o verão em Saltburn, propriedade suntuosa propriedade de sua família. Felix fascina porque é genuinamente uma boa pessoa dentro das limitações de sua classe, mas é também superficial, já que nunca precisou verdadeiramente entender o sofrimento alheio. Ele gosta de Oliver, mas nunca o vê como igual: há uma mistura de curiosidade e condescendência inconsciente em cada gesto seu. Elordi investiu na fisicalidade do personagem: em sua forma de ocupar o espaço como um soberano, de tocar as pessoas casualmente ou com intimidade física. O desafio para o ator estava em tornar Felix suficientemente carismático para justificar a obsessão de Oliver, mas também mostrar as limitações de sua empatia aristocrática.
Em “Priscilla” (2023, Mubi), de Sofia Coppola, Jacob Elordi ousou interpretar Elvis Presley em um filme que deliberadamente retrata o Rei do Rock não como ícone, mas como homem atormentado. O título já indica: o filme é de Priscilla (Cailee Spaeny), com quem o lendário artista se casou. Elordi moldou o comportamento de Elvis alternando ternura e frieza; Elvis usa silêncio como punição, ou é afetuoso como recompensa pela obediência dela. Brilhantemente, Elordi compreendeu que aquele era o Elvis tal como idealizado por Coppola, e não uma figura de filme biográfico.
“Apostas & Segredos” (2024, HBO Max) comprova que o grande êxito artístico não corresponde necessariamente a reconhecimento da crítica ou resultado de bilheteria. Dirigido por Daniel Minahan, o filme é adaptação do romance de Shannon Pufahl. A obra literária se passa na Califórnia do início dos anos 1950, época de conformismo opressivo e paranoia da Guerra Fria. Qualquer desvio das normas impostas, especialmente em relação à sexualidade, arruinava vidas. Numa epifania, Muriel (Daisy Edgar-Jones, inigualável) conhece Julius (Jacob Elordi). Ele é um homossexual em uma época em que tal orientação sexual não era apenas tabu social, mas crime, razão para internação psiquiátrica forçada ou prisão. Julius e Muriel tornam-se cúmplices silenciosos, cada um reconhecendo o interdito do outro. Elordi transmitiu todo esse mundo interior, de desejo, medo, vergonha, a solidão, por meio de gestos econômicos. No Oeste dos anos 1950 Julius não poderia parecer “afeminado” por necessidade de sobrevivência. Elordi mostrou isso na forma como Julius senta ou fuma cigarros. Jacob e Daisy criaram uma química específica – não sexual, mas profundamente íntima, do tipo que só existe entre pessoas que guardam segredos um do outro. Paralelamente, a audiência precisava entender a sexualidade e o sofrimento de Julius. Diferentemente do Nate Jacobs de “Euphoria” (personagem cuja sexualidade reprimida leva à violência), Julius é um homem cuja repressão resulta em tristeza silenciosa, gentileza desesperada, tentativas de criar beleza e conexão onde quer que passa. É uma atuação de coragem extraordinária porque exige a disposição de mostrar desejo homoerótico na tela de forma simples e honesta.
Em “Apostas & Segredos”, a performance de Jacob Elordi é, portanto, uma obra-prima de sutileza. De uma certa forma ele está irreconhecível no papel de Julius, o que demonstra a inteligência das suas escolhas artísticas. Seria tão mais cômodo fazer um super-herói ou uma bobagem romântica… E, no entanto, ele encara bravamente Julius, quando este se entrega a seu grande amor: “Antes de você, eu aceitava os nomes que me davam no escuro dos becos ou nas mesas de jogo. Eu era apenas um ladrão e uma bicha. Era assim que eu me via, porque era só o que me deixavam ser”.
Os trabalhos recentes de Jacob Elordi trazem outros desafios. Em “O Morro dos Ventos Uivantes” (2026), adaptação de Emerald Fennell do clássico de Emily Brontë, ele interpreta Heathcliff, órfão que desenvolve um amor obsessivo por Catherine Earnshaw (Margot Robbie). Heathcliff é dos personagens mais complexos da literatura inglesa. De criança abandonada a homem humilhado e rejeitado por sua classe social baixa, Heathcliff quer não só vingança, mas a destruição das próximas gerações das famílias que o massacraram. Torna-se o monstro que ele mesmo abomina. A escolha de Fennell em escalá-lo evidencia sua confiança na capacidade do ator de suportar esse imenso peso dramático e lidar com uma moralidade tão complexa.
“Frankenstein” (2025, Netflix), de Guillermo del Toro, adaptação do romance gótico de Mary Shelley, tem dado a merecida e tardia consagração a Jacob Elordi. Ele interpreta a criatura (não o Doutor Victor Frankenstein, como frequentemente confundido). Ela se inventa a partir zero, demonstrando uma inteligência extraordinária, mas, rejeitada brutal e repetidamente devido à aparência grotesca, sofre em seu isolamento e anseia pela companhia de alguém como ela. É um trabalho hercúleo para Elordi. Ele empenha nele seu corpo, sem a vantagem da beleza, e sua sensibilidade, revelando a trajetória da criatura: curiosidade inicial quase infantil, rejeições seguidas, súbita e devastadora compreensão de sua condição no mundo e, finalmente, descida ao ódio devido ao desprezo de seu criador.
A criatura de Guillermo del Toro serve magistralmente a um ator tantas vezes subestimado como Jocob Elordi no seu empenho em fazer compreender a grandeza de sua arte. A beleza, sobretudo no ator, é uma faca de dois gumes. Ele tem apenas 28 anos e, no entanto, já se permitiu todas as experiências aqui relatadas. Seria a hora de encarnar James Bond? Por que não? Provavelmente será 007 mais complexo da história da franquia.



