“Uma Batalha Após a Outra” (2025, HBO Max), filme dirigido e escrito por Paul Thomas Anderson (PTA) a partir do livro de Thomas Pynchon, conta a história de Bob, um ex-militante da esquerda radical (Leonardo DiCaprio). Ele vive recluso, convivendo mais com a inércia do que com qualquer projeto político efetivo. A narrativa se inicia com o reaparecimento de antigos contatos ligados a seu grupo revolucionário. O personagem é então obrigado a retomar relações marcadas por desconfiança e contradições. O grupo ao qual pertenceu, inspirado em organizações reais como o The Weather Underground, aparece fragmentado e sem qualquer forma de ação concreta. Mas a película não transforma esse bizarro retorno à militância em algo heroico. Seu desfecho é deliberadamente ambíguo. A “batalha” do título talvez aponte na verdade para a impossibilidade de reconciliar passado e presente.
O filme de PTA lida criativamente com a adaptação literária. “Vineland”, o romance de Thomas Pynchon, foi a base para “Uma Batalha Após a Outra”. Publicada na década de 1990, essa obra de ficção literária é ambientada na Califórnia de 1984 e retoma a vida de personagens cujas experiências nos anos 1960 e 1970 moldaram seus destinos. No romance, a trama principal gira em torno de Zoyd Wheeler, um ex-hippie marginalizado.
“Uma Batalha Após a Outra” dá um prosseguimento coerente à trajetória autoral de Paul Thomas Anderson. A literatura original é traduzida em uma linguagem cinematográfica própria, marcada por elipses e silêncios, e pela construção de personagens que parecem sempre deslocados no tempo histórico que habitam. A obra original é assim inserida em outro regime de sensibilidade, com a manutenção de suas tensões fundamentais.
O cinema de PTA caracteriza-se por investigar comunidades ameaçadas (“Sangue Negro” [2007, Amazon]) e sujeitos à deriva (“Embriagado de Amor” [2002, Sony One]). Agora ele se desloca para um terreno explicitamente político: a herança das lutas radicais dos anos 1970 e em sua sobrevivência espectral no presente. A representação do fictício France 1975, como síntese simbólica de uma esquerda radical e transnacional, aproxima o filme do imaginário associado ao histórico grupo revolucionário The Weather Underground. A militância armada dá lugar ao trauma por um movimento fracassado em um cenário contemporâneo de vigilância, cinismo e mercantilização da existência.
Os personagens de “Uma Batalha Após a Outra” funcionam como símbolos dessa crise revolucionária. As interpretações de Leonardo DiCaprio e Teyana Taylor (Perfidia) sustentam a eficácia do filme. DiCaprio trabalha a exaustão a autoconsciência de um indivíduo que parece saber que pertence a um passado sem ponto de contato com o presente. Ele aposta em uma atuação contida, como se estivesse em uma posição defensiva. Teyana, por sua vez, brilha por sua tensão irrefreável, combinando presença corporal e economia expressiva. A dinâmica entre ambos fundamenta o filme justamente naquilo que ele tem de mais instável: o confronto entre memória política e sobrevivência individual.
“Uma Batalha Após a Outra”, na Hollywood contemporânea, especialmente na Era Trump, impressiona por sua recusa às formas dominantes de engajamento cinematográfico. O filme propõe um olhar desconfortável sobre a esquerda (sem adotar um posicionamento de direita), sobre o fracasso das utopias e sobre a dificuldade de traduzir radicalismo em ação no presente. No centro da indústria estadunidense de entretenimento (o filme é distribuído pela Warner Bros. Pictures) e com estrelas de grande visibilidade, Anderson revitaliza de forma peculiar o cinema político, mostrando que ainda há espaço para obras que problematizam o imaginário liberal dominante.



